Pé na Cova: quando a comédia é sobre a vida

leticiabastos 03/10/2013 14

Na última terça-feira (01) estreou na Globo a segunda temporada de Pé na Cova, série escrita e protagonizada por Miguel Falabella. Mudando de dia – antes era apresentado nas noites de quintas-feira – e batendo recordes de audiência em SP e no Rio, a série é a nova “menina dos olhos” da emissora, que lançou a segunda temporada apenas poucos meses após o encerramento da primeira.

pe na cova

Já falamos sobre Pé na Cova aqui no Box de Séries – em um texto que foi “assassinado” pelo antigo servidor. E resgatamos o primeiro parágrafo, que continua dizendo aquilo que é necessário quando decidimos falar sobre o programa: “quando Pé na Cova estreou, muitos reclamaram da ‘falta’ de humor que a série apresentava, afinal o prometido (e o esperado) pelo público que já conhece Miguel Falabella era um humor mais escrachado…” Sim, era isso o que todos esperavam, e ainda esperam de um programa realizado pela TV aberta. Mas e por que Pé na Cova, mesmo não sendo assim, fez e faz tanto sucesso?

A explicação está no texto e na identificação com as situações. Claro que ninguém se reconhece fielmente nos personagens exagerados, ignorantes e extremamente estereotipados. E nem é isso que Miguel Falabella espera – como citou em uma entrevista. Com um roteiro que explora os preconceitos e a luta eterna pela sobrevivência, Pé na Cova faz uma alegoria sobre tudo de bom, e tudo de ruim que existe na sociedade brasileira. E acerta porque toca nessas feridas.

O ótimo primeiro episódio da segunda temporada trouxe todas essas discussões mais uma vez para o palco da TV. Tivemos a apresentação do filho de Odete Roitman (Luma Costa) e Tamanco (Mart’nália), o casal de lésbicas da trama. E, logicamente, tivemos os protestos vagos daqueles que defendem a tal “família brasileira”. Em uma longa discussão que agitou os ânimos de todos, Odete Roitman, cansada de apresentar ótimos argumentos para as atitudes das duas e para a vontade de iniciar uma família, encerrou o protesto abrindo o roupão e mostrando o corpo. Nada precisou ser dito naquele momento, mas os espertos entenderam a tirada de Miguel Falabella. Em uma sociedade que define o que é certo ou errado de acordo com a conveniência, Odete cansada de argumentar exalta seu poder mostrando o corpo. Existe coisa mais Brasil que isso?

A definição do que é certo ou errado apareceu também no momento “fazendo justiça com as próprias mãos”, quando os vizinhos irados resolveram espancar o garoto que roubou o pão. Ele, tendo como grande incentivo para a atitude o pesar indescritível da fome. E os vizinhos inflamados de raiva distorcendo o o significado do que é correto, e se vingando dos seus males em alguém que é totalmente indefeso. Mais uma vez, existe coisa mais Brasil que isso? [2]

pe na cova 3Os pequenos toques lúdicos sobre a definição dos sonhos, e de como eles movem nossas vidas também estavam lá, em pequenas pérolas espalhadas no roteiro e nas frases lindamente escritas. A destruição dos sonhos e a readaptação estavam representadas na Abigail de Lorena Comparato, e na Darlene de Marília Pêra, que mais uma vez, com todos os seus exageros, se mostrou extremamente verdadeira em cena.

- Moço, você quer um sonho? Todo mundo precisa de um.” – Abigail

Com uma comédia que não faz rir, e sim pensar – recheada de “tapas na cara” da sociedade – Miguel Falabella reinventa as séries de família, e nos entrega um produto politicamente incorreto cheio de pequenas lições pelo caminho. Não importa o destino dos personagens e nem as reviravoltas do roteiro. Importa em qual das atitudes deles vamos reconhecer algum erro ou acerto que já cometemos na nossa vida.

E isso é Pé na Cova, o Brasil do “jeitinho” e do “sou brasileiro, não desisto nunca” finalmente representado na tela da TV. Assistam.